A popularização dos smartphones transformou profundamente a infância nas últimas décadas. Para especialistas em psicologia e comportamento, quem cresceu sem ter um celular sempre à disposição desenvolveu uma relação diferente com a espera, o silêncio e até mesmo com os momentos de tédio. Antes das telas dominarem o cotidiano, era comum que crianças precisassem encontrar formas próprias de entretenimento e interação.
Sem acesso imediato a vídeos, jogos e redes sociais, muitas brincadeiras surgiam da imaginação. Conversas com amigos, atividades ao ar livre, desenhos, jogos improvisados e outras formas de lazer ocupavam o tempo livre. Essa realidade exigia mais iniciativa e criatividade para lidar com períodos sem estímulos constantes.
Especialistas destacam, porém, que a relação entre tédio e criatividade não é tão simples quanto parece. Uma revisão sistemática publicada em 2023, reunindo 27 estudos empíricos, não encontrou evidências conclusivas de que o tédio, por si só, aumente a criatividade em todas as situações. Ainda assim, o período sem distrações imediatas pode favorecer momentos de reflexão e exploração de novas atividades.
Outro aspecto frequentemente apontado é o desenvolvimento da paciência. Antes dos smartphones, crianças precisavam esperar mais para obter respostas, encontrar amigos ou resolver problemas do cotidiano. Essa convivência com intervalos vazios ajudava a criar uma relação diferente com o tempo e com as frustrações inevitáveis da vida.
Uso precoce do celular preocupa pesquisadores
Nos últimos anos, estudos passaram a investigar os possíveis impactos da chegada dos smartphones durante a infância. Uma pesquisa global divulgada em 2025 apontou associação entre o recebimento de celulares antes dos 13 anos e indicadores menos favoráveis de saúde mental, embora os pesquisadores ressaltem que a relação não significa necessariamente causa e efeito.
Segundo os dados analisados, meninas que tiveram acesso precoce aos smartphones apresentaram maior vulnerabilidade a comparações sociais e menor resiliência emocional. Entre os meninos, foram observados índices mais baixos de estabilidade emocional, calma e empatia. Em ambos os grupos, os resultados reforçam a importância da supervisão familiar, da definição de limites e do uso equilibrado da tecnologia durante o desenvolvimento infantil.










