A recente marca nominal do dólar, que chegou a R$ 6,05 em uma sexta-feira de novembro segundo a cotação Ptax do Banco Central, não representa o ponto mais alto da moeda americana quando analisada sob uma perspectiva histórica mais ampla. Ao considerar a inflação acumulada ao longo dos anos, o cenário muda de forma significativa e revela que o Brasil já enfrentou momentos de pressão cambial bem mais intensos.
Pico histórico ocorreu em meio à tensão eleitoral de 2002
De acordo com um levantamento da consultoria Elos Ayta, que analisou dados dos últimos 30 anos, o maior valor real do dólar foi registrado em setembro de 2002. Naquele período, ao ajustar a cotação pela inflação brasileira, medida pelo IPCA, e pela inflação dos Estados Unidos, apurada pelo CPI-U, a moeda norte-americana alcançou o equivalente a R$ 8,75.
O contexto ajuda a explicar o salto. Às vésperas das eleições presidenciais, o mercado financeiro reagiu com forte apreensão à possibilidade de vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. O aumento da percepção de risco provocou fuga de capitais e elevou de forma expressiva a taxa de câmbio, em um dos momentos mais delicados da economia brasileira no início dos anos 2000.
Outros períodos superaram a cotação atual
Além de 2002, o estudo aponta outros episódios em que o dólar, corrigido pela inflação, ficou acima dos níveis recentes. Em julho de 2001, a cotação real chegou a R$ 6,40, refletindo incertezas externas e internas. Já em outubro de 2020, durante o auge das incertezas provocadas pela pandemia de covid-19, o valor equivalente alcançou R$ 6,73.
Esses números mostram que, apesar do impacto visual das cotações nominais mais recentes, o Brasil já lidou com pressões cambiais mais severas quando se leva em conta o poder de compra da moeda.
Metodologia considera apenas inflação
Segundo Einar Rivero, sócio e analista da Elos Ayta, o cálculo é baseado na paridade de poder de compra, método que leva em consideração apenas a inflação acumulada nos dois países. Fatores como taxa de juros, reservas internacionais, risco fiscal e fluxo de capitais não entram nessa conta.
Ainda assim, o movimento recente do dólar reflete reações do mercado a discussões fiscais, como propostas de corte de gastos e mudanças na faixa de isenção do Imposto de Renda. Na véspera da cotação Ptax, o dólar à vista havia encerrado o dia a R$ 5,91. No acumulado do ano, a moeda registra valorização de 21,84% frente ao real.






