O ano letivo começou com insegurança para uma parcela significativa dos docentes da rede estadual paulista. Durante o processo anual de distribuição de aulas — etapa que define carga horária, turmas, escolas e renovação contratual — cerca de 40 mil profissionais acabaram sem classes atribuídas.
Ao consultarem o sistema da Secretaria Escolar Digital (SED), muitos professores descobriram que não haviam recebido aulas para 2026. Para parte deles, isso significa ficar temporariamente sem salário. A situação atinge principalmente docentes com vínculos mais frágeis, mas também alcança categorias consideradas estáveis.
Segundo dados divulgados pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), aproximadamente 10 mil profissionais das categorias A (efetivos) e F (estáveis) ficaram sem aulas atribuídas. Somando-se os temporários, o total se aproxima de 40 mil.
Diferenças entre categorias
Os professores efetivos não podem ser desligados do serviço público e, quando ficam sem turmas, costumam ser realocados para outras funções dentro das escolas, mantendo a remuneração. Já os estáveis permanecem com uma carga mínima de aulas e recebem apenas pelas atividades complementares atribuídas.
A situação é ainda mais delicada para docentes da chamada categoria O, contratados temporariamente. Sem novas aulas atribuídas, o contrato simplesmente não é renovado.
Pressão e ambiente de trabalho
Relatos de profissionais indicam que a instabilidade contratual vem acompanhada de um ambiente considerado desgastante. Professores mencionam cobrança intensa por resultados, avaliações constantes e pouca autonomia pedagógica.
Segundo um docente ouvido sob condição de anonimato, o clima varia entre as unidades escolares, mas a pressão é recorrente. Ele aponta ainda mudanças na organização curricular, como redução de aulas em determinadas disciplinas e ajustes na grade do ensino fundamental e médio.
Entre as alterações citadas estão cortes ou redução de carga em matérias como sociologia e filosofia, além da criação de novos itinerários formativos que, na avaliação de alguns profissionais, não dialogam com a realidade das escolas.
Crescimento dos contratos temporários
Dados recentes mostram que o número de professores temporários ultrapassou o de efetivos. Entre 2022 e 2023, os contratos temporários passaram de 95 mil para mais de 101 mil, enquanto o total de efetivos recuou no mesmo período.
Para representantes da Apeoesp, essa mudança sinaliza uma política de ampliação de vínculos mais flexíveis. O dirigente sindical Paulo Neves avalia que o crescimento dos contratos temporários indica uma transformação estrutural na rede.
Há também preocupação com a possibilidade de expansão de modelos de contratação considerados mais precarizados, semelhantes aos adotados em outros estados.
Orçamento e reorganização da rede
Entre os fatores apontados para o cenário atual estão a reorganização das escolas, ampliação do ensino integral, fechamento de turmas e restrições orçamentárias.
O deputado estadual Carlos Giannazi (Psol), que já atuou como professor da rede pública, destaca que houve redução no percentual mínimo constitucional destinado à educação no estado. A mudança diminuiu a fatia da arrecadação de impostos vinculada obrigatoriamente ao setor, o que, segundo ele, representa uma queda bilionária nos recursos disponíveis anualmente.
A alteração foi aprovada pela Assembleia Legislativa no fim de 2024, após proposta apresentada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que justificou a medida como forma de ampliar investimentos em outras áreas, como a Saúde.
Com menos turmas em funcionamento, mudanças curriculares e ajustes no orçamento, a rede estadual inicia 2026 em meio a incertezas. Para milhares de professores, o desafio imediato é lidar com a instabilidade profissional enquanto aguardam definições sobre atribuições futuras ou buscam alternativas fora da sala de aula.






